Forma, Conteúdo e Dança

Dança

Toda cultura dança. Aliás, todo mundo dança. A dança está no nosso kit existencial, veio conosco. Um bebê ao som de uma música se mexe e executa movimentos, ainda que ele não saiba que o nome disso seja dança, ele já o faz.  Assim como todo ser humano (os que são fisicamente capazes) tem a capacidade de falar, andar, correr, cantar, contar histórias, rir, comer entre outras atividades, ele tem a capacidade de dançar.

A dança tem algumas possibilidades. Ela encanta, ela diverte, ela seduz, ela comunica, assim como a fala, que é outra habilidade do ser humano, tem o mesmo poder. Ou seja, porque podemos falar e não podemos dançar na igreja? Claro que podemos, a questão é a intenção.

Partindo da idéia da dança como possibilidade de comunicação, podemos entendê-la como uma linguagem e como linguagem ela expressa intenções e valores. A questão é que houve uma problematização do corpo na Grécia antiga trazida por filósofos como Platão, Sócrates e Aristóteles que acreditavam que a alma era o lugar privilegiado da razão e o corpo era secundário ao progresso humano, sendo o mesmo uma prisão da alma que levava a mesma ao erro. Ou seja, acreditava-se que a alma era boa e o corpo ruim.

Junto a esse pensamento que perpetua em diferentes culturas ao redor do mundo, veio a idéia bíblica de que o espírito e a carne militam constantemente, e porque o corpo é o veículo da alma, é nele que a carne se manifesta fazendo o homem pecar. Na verdade o problema não é o corpo, mas sim a alma, as intenções, os desejos. O corpo por si só não faz nada, mas se é comandado pela alma aí sim ele realiza coisas boas ou más.

Por muito tempo as igrejas cristãs no Brasil viam a dança como algo sensual e descabida as nossas práticas de culto e vida cristã. A nossa cultura também associa a dança a sensualidade em muitas das suas representações e estilos. Talvez isso se deva a nossa hereditariedade européia em contraste a africana. Nas culturas africanas o movimento do quadril, por exemplo, não está ligado à sensualidade tanto quanto está para o europeu. Como temos as duas culturas correndo em nosso sangue acabamos herdando os movimentos e o paradigma. O brasileiro rebola e associa isso a algo errado, proibido, carnal. Nada mais natural que a igreja pense do mesmo jeito.

Segundo Antônio José Faro, em seu livro Pequena História da Dança (1998), a dança historicamente passou por três fases. Segundo o autor, historiadores encontraram registros que as primeiras manifestações de dança estavam ligadas ao culto. Os povos dançavam para agradecer ou pedir em rituais religiosos. Na segunda fase a dança passa a ser folclórica, ou seja, os povos dançavam para contar suas histórias e perpetuar suas culturas. E na terceira fase a dança se torna teatral, com o intuito de entreter. Não se sabe ao certo quando cada fase começou e nem podemos afirmar que ao início de uma fase houve a extinção das outras porque ainda hoje a dança pode ser usada no culto, no folclore e no entretenimento. A questão é que em algum ponto a idéia da dança nos cultos cristãos perdeu seu lugar. Nas religiões africanas e indígenas, por exemplo, isso faz parte da ritualidade até hoje.

Voltando a idéia da dança como linguagem e livrando-se da idéia de pecado associada ao corpo podemos perfeitamente usá-la como forma de cultuar a Deus, manifestando sentimento e expressando devoção, assim como faríamos com a boca se optássemos por falar ao invés de dançar.  Não está na dança o poder de fazer bem ou mal, mas esse poder reside na intenção de quem o faz.

Em 2 Samuel capítulo 6 está registrado o retorno da arca da aliança para Jerusalém. A arca representava a presença de Deus e nesse texto no versículo 14 conta que Davi vestindo o colete sacerdotal ia dançando com todas as suas forças perante o senhor. A intenção de Davi era de gratidão, alegria, de celebração. Ele estava diante da arca que era a própria presença de Deus, e Deus não o consumiu (lembre-se que pessoas poderiam morrer se achegassem diante da arca sem serem sacerdotes e dentro de todo o cerimonial que isso envolvia). O interessante é que sua mulher, Mical, ao vê-lo dançando o despreza em seu coração e naquele momento Deus fecha a sua madre e ela fica estéril. Nesse texto fica claro que a dança de Davi não parecia ser um desrespeito aos olhos de Deus, pois o mesmo não o consumiu, mas castigou quem o criticava naquele momento.

Já em Mateus capítulo 14 vemos a narrativa da morte de João Batista.  Herodias, cunhada do rei Herodes, estava tendo um caso com o mesmo e o profeta João Batista condenou aquele ato. Na ocasião do aniversário do rei, a filha de Herodias dançou durante a festa e encantou tanto o rei que lhe prometeu dar tudo o que ela pedisse. Ela sem motivação alguma, mas insuflada por sua mãe, pede a cabeça de João Batista que foi morto logo em seguida.

Olhando essas histórias percebemos que a dança foi apenas um instrumento usado ao sabor de quem a executava. O poder de ser uma dança que abençoa ou destrói está no desejo e na motivação de quem o faz. O corpo é apenas o veículo da alma, a dança só acontece no corpo, mas a sua motivação vem da alma, logo o problema está em ter uma boa alma e não em ter um corpo.

A água em diversos recipientes vai se conformar a um desenho de acordo a uma forma, mas ainda sim será água. Veneno em diversos recipientes mudará de formato, mas ainda sim será veneno. A dança é uma forma, o conteúdo é dado por quem a usa podendo ser usada para ensinar, curar, ministrar, abençoar ou para fazer o contrário de tudo isso. Dança é uma forma e Deus o criador deu ao homem essa capacidade de se expressar através dela assim como deu outras formas para que o homem se comunicasse e fizesse dessa comunicação algo bom ou ruim. O que importa não é a forma, desde que essa também seja boa, mas sim o conteúdo que vem de um coração cheio de amor por Deus.

Dance para Deus!

Felipe Toller
Professor de Dança e Coordenador de curso no CTMDT
Membro da Companhia de Dança MUDANÇA.
Foi coreógrafo do DVD Crianças Diante do Trono “Para Adorar ao Senhor” (2008), e dançarino nos DVDs: Viver por Ti (CTMDT 2006), Rio (Nívea Soares 2007), Tua Visão (DT 2009) e Glória e Honra (Nívea Soares 2011)

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2 respostas para “Forma, Conteúdo e Dança”

  1. Katiussia disse:

    A paz!!!

    Estou desesperada por uma escola de dança em São Paulo, poderia me indicar alguma?

    Obrigada…

  2. Suzi Mara Souza Coelho disse:

    Adorei este artigo, sempre dancei quando era do mundo e não encontrei melhor forma de me expressar pra Deus que não fosse dançando, hoje o que mais quero é falar sobre essa forma de ADORAÇÃO, encontrei uma grande inspiração lendo aqui, Shalom….

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